Fundação da Academia do Bacalhau de Toronto
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Na Rota do Bacalhau
"Por
mares nunca dantes navegados"
Convidado da Academia do Bacalhau para o jantar pré-inaugural desta tertúlia em Toronto, foram anunciados os seus objectivos, projectos e envolvimento, não lucrativo, nas diversas áreas sociais. Ficou-se, também, a conhecer o praxismo, rigorosíssimo, a que estão sujeitos não só os Compadres e Comadres mas também o incauto cidadão convidado, por mais venerável que seja - na Academia são todos iguais, só o Presidente é diferente, quando no exercício da função. Da praxe a destacar o GAVIÃO DE PENACHO, salutar, animada e cantante forma de beber um copo de tinto, e a MULTA, aplicada aos menos atentos, barulhentos e perguntadores, sem distinção, até para o Presidente. Para que não haja fugas o Compadre CARRASCO encarrega-se da vigilância e cobrança.
Confortado o estômago com o caldo verde (com tora como manda a tradição) e a posta de bacalhau (a minha bem alta, soltando-se fácilmente en saborosas lascas - o meu haja ao John Pereira) e alguns copos de tinto, mais os muitos Gaviões de Penacho, elevou-se-me o espírito, envolto nos odoriferos vapores do tinto e do Porto e entrei em sonolenta divagação
Decorrem este ano as comemoracões das viagens dos navegadores portugueses. Já lá vão cinco séculos. As descobertas foram mostrando novos mundos ao mundo e os mares já não mais são povoados por monstros marinhos que engolem embarcações !!! Agora afirmam existir (?) o Triângulo das Bermudas com idênticas funções !!!
O tempo apaga a memória dos homens. Dá-se grande relêvo ao Descobrimento da Caminho Marítimo para a Índia, mas esquecem-se as rotas de outras latitudes. A rota da Índia provocou o "crash" do "stock market" do Oriente. Foi a falência dos monopolistas das rotas da sêda e da porcelana, da pimenta e da canela, da noz moscada, do gengibre e do caril também. A recessão provocou o caos económico e trouxe o desemprêgo para milhares de camelos, obrigados a emigrar, até para a longínqua Austrália, para sobreviverem e manter a família (entenda-se a espécie). Com o mal de uns governam-se os outros. A Bôlsa de Lisboa teve um "boom" espectacular e a Europa conheceu na pele e na bôca o custo da sêda, do grão da pimenta e do pau da canela !!!
Mas os Descobrimentos não foram só as rotas da Índia e do Brasil. Outras houve tão ou mais importantes das quais destaco, com ênfase, a do BACALHAU.
Foi o desejo de conseguir a sua posta que o Povo, teimosamente, foi mantendo
o bacalhau à sua mesa, muitas vezes só conseguido uma vez
por ano. Por mais magra que fosse a bôlsa ele lá aparecia
na festa maior, a noite da consoada. Vinha acompanhado com batatas, grêlos
e ainda cebolas cozidas. O azeitinho com um dentinho de alho, bem picadinho,
oleava a bacalhoada. Aí ganhou o título de FIEL AMIGO, mas
não por muito tempo
a inveja não dorme !!! Do povo
subiu às elites. Curiosamente com o Fado foi igual !!! Agora digam-me se tenho ou não razão, se o bacalhau é ou não mais importante que as pimentas e canelas e todos os MacDonalds, Kentuckies e quejandos da América do Norte ? Eu aposto como o primeiro astronauta português a viajar para Marte vai levar no farnel uns pastelinhos e pataniscas e, quando voltar, vai abrir um restaurante e servir bacalhau à Marciano e Despertei da minha sonolenta divagação a tempo de poder acompanhar, não sei a que pretexto, mais um Gavião de Penacho.
Toronto, 21 de Agosto de 1998 - ANO DA CAMPANHA DA TERRA NOVA
Paiva de Carvalho |
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"Secos e Molhados" - Paiva de Carvalho - 1998 Quadro oferecido pelo autor à Academia do Bacalhau de Toronto quando do jantar inaugural no "Ontario Club" em Toronto. |
Fotos do jantar do primeiro ano
