Fundação da Academia do Bacalhau de Toronto

 


Fundada em 19 de Setembro de 1998
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Na Rota do Bacalhau

 

"Por mares nunca dantes navegados"
Luiz de Camões - OS LUSÍADAS

 

Convidado da Academia do Bacalhau para o jantar pré-inaugural desta tertúlia em Toronto, foram anunciados os seus objectivos, projectos e envolvimento, não lucrativo, nas diversas áreas sociais. Ficou-se, também, a conhecer o praxismo, rigorosíssimo, a que estão sujeitos não só os Compadres e Comadres mas também o incauto cidadão convidado, por mais venerável que seja - na Academia são todos iguais, só o Presidente é diferente, quando no exercício da função. Da praxe a destacar o GAVIÃO DE PENACHO, salutar, animada e cantante forma de beber um copo de tinto, e a MULTA, aplicada aos menos atentos, barulhentos e perguntadores, sem distinção, até para o Presidente. Para que não haja fugas o Compadre CARRASCO encarrega-se da vigilância e cobrança.

 

Confortado o estômago com o caldo verde (com tora como manda a tradição) e a posta de bacalhau (a minha bem alta, soltando-se fácilmente en saborosas lascas - o meu haja ao John Pereira) e alguns copos de tinto, mais os muitos Gaviões de Penacho, elevou-se-me o espírito, envolto nos odoriferos vapores do tinto e do Porto e entrei em sonolenta divagação…

 

Decorrem este ano as comemoracões das viagens dos navegadores portugueses. Já lá vão cinco séculos. As descobertas foram mostrando novos mundos ao mundo e os mares já não mais são povoados por monstros marinhos que engolem embarcações !!! Agora afirmam existir (?) o Triângulo das Bermudas com idênticas funções !!!

 

O tempo apaga a memória dos homens. Dá-se grande relêvo ao Descobrimento da Caminho Marítimo para a Índia, mas esquecem-se as rotas de outras latitudes. A rota da Índia provocou o "crash" do "stock market" do Oriente. Foi a falência dos monopolistas das rotas da sêda e da porcelana, da pimenta e da canela, da noz moscada, do gengibre e do caril também. A recessão provocou o caos económico e trouxe o desemprêgo para milhares de camelos, obrigados a emigrar, até para a longínqua Austrália, para sobreviverem e manter a família (entenda-se a espécie). Com o mal de uns governam-se os outros. A Bôlsa de Lisboa teve um "boom" espectacular e a Europa conheceu na pele e na bôca o custo da sêda, do grão da pimenta e do pau da canela !!!

 

Mas os Descobrimentos não foram só as rotas da Índia e do Brasil. Outras houve tão ou mais importantes das quais destaco, com ênfase, a do BACALHAU.


Quando João Vaz Côrte Real e Álvaro Martins Homem descobriram a Terra Nova, em 1472, e provaram aquele desconhecido peixe de tão saboroso paladar, resolveram salgar e encher umas barricas que trouxeram de presente ao Rei D.João II. Este que não gostava de peixe, baniu o bacalhau na sua régia ementa, mas decretou fizesse parte das provisões da Marinha Real. Assim viajou com Gama e Cabral e muitos outros…
Ainda que as crónicas e os diários de bordo o não refiram, pode agora afirmar-se, sem margem para dúvida, que a discriminação dos comandantes, conluiados com o quartel- mestre, guardando para si a melhor posta (prática ainda hoje seguida por muitos) e entregando as espinhentas sobras à faminta tripulação originaram inúmeros levantamentos de rancho e outros motins, severamente reprimidos pela mão dura do poder. Foram dos ais e lamentos dos justiçados, que os companheiros pretensamente julgaram amenizar tocando bandolins e alaúdes, que nasceu o FADO. Contráriamente ao que se diz, o FADO não canta a saudade!!! Mas sim a posta perdida.!!! Ele até há o FADO DO BACALHAU!!!

 

Foi o desejo de conseguir a sua posta que o Povo, teimosamente, foi mantendo o bacalhau à sua mesa, muitas vezes só conseguido uma vez por ano. Por mais magra que fosse a bôlsa ele lá aparecia na festa maior, a noite da consoada. Vinha acompanhado com batatas, grêlos e ainda cebolas cozidas. O azeitinho com um dentinho de alho, bem picadinho, oleava a bacalhoada. Aí ganhou o título de FIEL AMIGO, mas não por muito tempo… a inveja não dorme !!! Do povo subiu às elites. Curiosamente com o Fado foi igual !!!
Ganhou foros de importância, direito a Comenda e Academia e até a livro onde é chamado de 1001 maneiras, desde a vernácula punheta até ao sofisticado soufflé, passando pelos pastelinhos e pataniscas, omoletas, açorda, à espanhola, à Brás e à Gomes de Sá, à Narcisa e à Zé do Pipo, com natas, à casa e à Vilela… tudo é bacalhau.Qual guerreiro medieval também teve, recentemente, a sua guerra de quota e malha !!!

Agora digam-me se tenho ou não razão, se o bacalhau é ou não mais importante que as pimentas e canelas e todos os MacDonalds, Kentuckies e quejandos da América do Norte ? Eu aposto como o primeiro astronauta português a viajar para Marte vai levar no farnel uns pastelinhos e pataniscas e, quando voltar, vai abrir um restaurante e servir bacalhau à Marciano e… Despertei da minha sonolenta divagação a tempo de poder acompanhar, não sei a que pretexto, mais um Gavião de Penacho.

 

Toronto, 21 de Agosto de 1998 - ANO DA CAMPANHA DA TERRA NOVA

 

Paiva de Carvalho

 

"Secos e Molhados" - Paiva de Carvalho - 1998

Quadro oferecido pelo autor à Academia do Bacalhau de Toronto quando do jantar inaugural no "Ontario Club" em Toronto.

 

Fotos do jantar do primeiro ano

 

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