Já temos um "compadre" na presidência da Câmara de Toronto


Academia do Bacalhau cumpre missão de "abrir portas" à Comunidade

 


Já é alguma coisa. A partir de agora, temos como "Mayor" de Toronto um "compadre". E, de facto, em termos portugueses, um compadre é como que um familiar, um amigo, uma espécie de padrinho. No mínimo, e fazendo fé no que dizem os dicionários... um amigo íntimo.

O presidente da Câmara Municipal de Toronto foi solenemente entronizado como "compadre" na Academia do Bacalhau, reunida para receber a primeira visita oficial do Mayor (recentemente eleito) à comunidade portuguesa.

Foi uma cerimónia singela, talvez, mas bem significativa, na presença de algumas centenas de pessoas que estiveram no Dundas Banquet Hall, na sexta-feira passada.




Com as badaladas do sino e com o tradicional "Gavião de Penacho... vai acima e vai abaixo", David Miller interessou-se vivamente pelo cerimonial, ao mesmo tempo que ajudou à campanha de angariação de fundos a favor do projecto "On Your Mark" que é iniciativa da Academia do Bacalhau e patrocinado em parte pelo bcpbank e pela Local 183.

Marcie Ponte, directora executiva do Working Women Community Centre, uma das parceiras do projecto "On Your Mark", disse da sua satisfação em contar com o apoio do presidente da Câmara e de tantas organizações ali representadas.

Votos de continuação "de mais esta cruzada a favor da nossa gente" foram formulados pelo cônsul-geral de Portugal, Artur Monteiro de Magalhães. Para ele, "falar do insucesso ou do abandono escolar já não é mais tabu, uma vez que as comunidades conseguiram alterar as coisas e partir da situação para o avanço que todos esperávamos". "Todos juntos, fomos melhorando, estamos a melhorar", acentuou.

 


Alguns nomes entre o muito entusiasmo comunitário


Durante o jantar – em que foi servido bacalhau à Narcisa – foi referido que ao longo de 3 anos e com a participação de 9 dezenas de explicadores voluntários, o programa "On Your Mark" ajudou para cima de duas centenas de estudantes em 18 escolas primárias e secundárias a melhorar os seus resultados escolares.

Ilda Januário, que foi a "voz" das muitas boas-vontades que têm vindo a liderar com um problema, falou em muitos nomes que, ao longo dos tempos, têm vindo a pugnar porque haja melhor e mais sucesso entre os jovens portugueses em idade escolar. Foi dizendo, desde logo, que muitos outros nomes poderiam ser citados. Num ou noutro aspecto, numa ou noutra capacidade, Marta Brum, Manuela Marujo, E. Basani, Cidália Pereira, Ed Graça, Nellie Pedro, Vanda Henriques, Nancy Brasil, Martinho Silva e Mia e Ivo Azevedo foram quem mais se foi envolvendo na "guerra contra o sucesso e abandono escolar".

 


Várias "provas vivas"




Sim, porque "On Your Mark" pretende ser uma resposta ao resultado do estudo elaborado em 2000, o qual identificava a comunidade portuguesa com os mais baixos índices de estudantes a terminarem o ensino secundário e a frequentarem a Universidade.

Na assistência, vários jovens que, ou aproveitaram do projecto "On Your Mark" ou ajudaram a que ele tivesse mais visibilidade entre quantos, na comunidade, se interessam pela preparação do futuro.

Natasha Santos, que serviu de mestre de cerimónias pode bem ser considerada como uma jovem luso-descendente que soube preparar-se para esse futuro que todos queremos que seja melhor do que o passado. De uma sobriedade a toda a prova, soube interpretar todo o ambiente que a rodeava e servir de "ponte" entre as diversas fases de uma noite memorável. Quando era preciso deixava no ar uma frase que poderia bem ser interpretada como de apoio a todo o projecto.

 

 

E o "Vai acima... vai abaixo"?




Na entronização do Mayor David Miller, Ivo Azevedo, presidente da Academia, e Rui Gomes, um dos fundadores, levaram a cabo todo o cerimonial em que se inclui o "Vai acima e vai abaixo..." com um copo de vinho tinto português.

Martinho Silva fez a apresentação do mais novo "compadre" da Academia do Bacalhau. Fê-lo no seu estilo habitual. Interessante. A puxar, afinal, pelo emigrante que todos nós fomos – David Miller, inclusive, já que emigrou para o Canadá, com a mãe, em 1967 – e que ajudámos, estamos a ajudar, a construir um País.

Meio a rir meio a sério, bem ao estilo canadiano, Martinho haveria de tirar a David Miller os seus títulos, já que como "compadre" é igual aos outros. "Ele é um emigrante como nós. Nascido algures e trazido para o Canadá quando tinha 8 anos de idade pela pouca sorte de lhe ter morrido o pai ou pela sorte de a mãe aqui ter um irmão".

E foi andando para dizer que "nós chegámos de uma terra onde o bacalhau pode ser servido de 365 diferentes maneiras" e ele chegou de uma terra onde "fish and chips" são servidos de 365 formas... e mesmo na escola foi pouco bem recebido por falar o Inglês com o sotaque britânico. "Mas pelo Natal (de 67) já ele tinha deixado cair o tal sotaque e falava Canadiano fluentemente..."

Quando cursou Harvard… teve de comer o pão que o demo amassou, mesmo fazendo limpeza nas salas de aula dos meninos ricos. "Bem, David, eu limpei as casas de banho da CNE... limpando mais casas de banho do que tu", disse Martinho Silva, provocando gargalhadas na sala.

Uma "apresentação de mestre" a que Martinho fez do seu amigo David. Uma apresentação que mereceria ser aqui arquivada, não fora a crónica falta de espaço, em Jornal como o nosso que se interessa pelo viver geral da cidade, do país e do mundo. Terminou dizendo que, "hoje temos a honra da sua presença na nossa comunidade para apoiar o programa "On Your Mark", que ajuda as nossas crinças a melhorarem o seu aproveitamento escolar. Quem sabe se no futuro um descendente luso canadiano, virá a ser Presidente da Câmara de Toronto graças aos apoios de todos vós hoje aqui reunidos. Por isso, por favor ajudem-me a dar umas boas vindas à portuguesa, ao mais recente compadre da Academia do Bacalhau, o presidente da Câmara de Toronto, o meu amigo: David Miller!"

 


Cumprindo praxes e dando "lições"




David Miller cumpriu todas as praxes, chegando ao ponto de, na altura dos discursos, se considerar um verdadeiro "compadre".

Respondendo ao locutor Mário Silva, de uma das estações de rádio comunitárias, meio a rir meio a sério, haveria de dizer que se Gaspar Corte Real e os portugueses que aqui chegaram não se tivessem ido embora em demanda do sol e do... sal de Portugal, "a ilha continuaria a ser chamada Terra Nova, o país continuaria a ser chamado Cá Nada, e os Silvas seriam os Mayors de Toronto, enquanto os Millers trabalhariam para a CHIN Radio".

"Tenho a honra de ter sido nomeado compadre da Academia do Bacalhau. Este grupo arranjou as coisas de forma a estar em convívio, apreciar a boa comida e ao mesmo tempo angariar dinheiro para causas importantes. Se a comida for tão boa no próximo ano, e a causa for tão importante como esta... sentirei o maior prazer em estar aqui de novo", asseverou o novo compadre.

Falou em Domingos Marques e Manuela Marujo – também novos "compadres" – para lembrar que o pai de Domingos veio ao Canadá muitas vezes, como pescador, e que um dia decidiu que era tempo de trocar o mar e fixar-se permanentemente no Canadá, que "está agradecido pela sua contribuição, e pela contribuição de muitos milhares de bons cidadãos de Portugal que fizeram de Toronto a sua casa. Lembrou Gaspar Corte Real, que chegou umas quantas décadas antes de Cabotto.

 


Uma festa em grande

 

David Miller haveria, depois, de cumprimentar todos os presentes, passando mesa a mesa por todos e interessando-se pelo viver geral das pessoas.

No final, era a Luso Can Tuna a actuar, não antes de se reunir com o presidente do bcpbank, Pedro Belo, a quem um dos alunos fez questão de emprestar uma capa. De resto, muitos dos dirigentes do bcpbank estiveram presentes.

A completar a música do "Tropicalíssimo Show" actuou ainda Porfírio Ribeiro.

 

Fernando Cruz Gomes

Jornal "Sol Português"

2 de Abril de 2004

 

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